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Ela sorri como criança. Acho que nunca tinha visto tantos dentes numa boca pra rir tão perto de mim. E seus olhos brilham com uma sinceridade incendiária que tocam minhas entranhas mais céticas e me fazem acreditar. Acreditar que também havia uma criança em mim, e que se excita de ver sua alegria enquanto há tempo. Acreditar que menina mulher existe e brinca de atrair garoto velho.
Quando não a vejo, a imagino. Ela me lembra cheiro de mato, o aroma de dama-da-noite embora se pareça mais com um girassol a se abrir pro calor. Quase a vejo pulando descalça na terra, como quem festeja o simples viver e agradece a seu Deus pelo ar que respira. Como se torna grande uma pessoa que acredita em coisas além dela mesma, não?
E ainda que ela me conte tantas coisas que aprontava, escondendo sei lá quantas outras, acho que nunca perderá o olhar ingênuo de quem se mistura com as crianças. De quem solta os pensamentos, seja em palavras que escapam, seja nos olhos que não mentem, seja nas mãos que querem tocar. De quem fala 'acho q te amo' no primeiro dia - coisa mais incerta e indevida, mas risonha pra ela. Ela sorri como criança.
O menino de mãos fechadas observa o lago. A vida lhe tirou as pessoas de quem era próximo, ou tirou o jeito dele se aproximar delas. Ele não tem um passado que tenha orgulho, e está numa posição que não queria chegar. O ruído das cigarras é interrompido por um murmuro familiar, em ode à alegria*.
— Você está muito receoso com o primeiro contato.
Você tem tanto medo de afeição?
Se não se aproximar dos outros, não será traído, e nem machucará ninguém.
Porém, nunca vai conseguir esquecer a solidão.
O Homem nunca vai conseguir fazer a solidão desaparecer, porque está sozinho, mas consegue esquecer.
E assim consegue encontrar a vontade de viver.
— Está na hora...
— Está?
— É, temos que ir.
— Juntos?
— Ah! Você deve ter sua direção, eu acho.
(ele se levanta) — Certo. O Ser Humano sempre sente dor. Como seu coração sente dor, a vida para o ser humano é dor. Você é quebrável como vidro.
— Sou?
— Sim, e isso merece minha simpatia.
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* Movimento da Nona Sinfonia de Beethoven.
Cena de Shin Seiki Evangelion, posso dizer que a única coisa que marcou minha infância, tardiamente com 14 anos. Há tempos no fundo da memória, mas saudosa estes dias.